O Ilusionista
O Ilusionista olhou para a plateia com um sorriso seráfico. Iria surpreendê-los e iludi-los com o seu novo truque, guardado a sete chaves no maior secretismo.
Gostava particularmente do momento da expectativa, as luzes que o isolavam de tudo o resto, tirar a capa, nada na manga e, de repente, aqueles segundos mágicos quando a plateia abria muito os olhos para tentar perceber o que tinha acontecido.
Desta vez a surpresa seria muito maior: iria evaporar uma parte do próprio tempo. O cronómetro iria reiniciar mas com três anos retirados a todos, como se não tivessem existido.
A arte maior, que só ele dominava, residia precisamente nisso: a plateia tinha vivido esse tempo, tinha sido prensada, martelada, machucada, empacotada, tinha mesmo andado para trás alguns degraus da escada. O que importava era o que o cronómetro marcava daqui para a frente.
Sacudiu a melena teimosa, o rosto iluminado a contrastar com o fato escuro, aproximou-se do aparelhómetro e deu-lhe corda. Os números mágicos surgiram num cartão furado: três anos tinham desaparecido, precisamente os piores de todos.
O silêncio pesou na plateia. O Ilusionista preparava-se para a vénia do triunfo, mas os aplausos não vieram. A plateia estaria a tentar perceber o truque? Era impossível, era o seu truque, só seu.
A plateia ergueu-se quase em simultâneo: rostos incrédulos, jovens, velhos, de meia-idade, a tentar digerir a ilusão do cronómetro. Depois quase em simultâneo, como se uma mola os impulsionasse, dirigiram-se ao palco e exigiram ao Ilusionista manhoso que lhes explicasse o truque.
